Nota Técnica 009 da NFS-e: as mudanças que chegam com a Reforma Tributária — e o que a sua empresa precisa saber agora

Dargelina Seabra • 18 de junho de 2026

Há algumas semanas, falamos aqui sobre a Nota Técnica 008 e a mudança no DANFSe — o documento que acompanha a sua nota fiscal de serviços. O prazo para essa adequação é 1º de julho de 2026. Avisamos, na época, que o assunto não terminaria por aí.



No dia
4 de junho de 2026, o Comitê Gestor da NFS-e publicou a Nota Técnica nº 009, com evoluções mais amplas — desta vez ligadas diretamente à Reforma Tributária do Consumo (LC nº 214/2025). As mudanças afetam o próprio leiaute da NFS-e e da Declaração de Prestação de Serviços (DPS). O cronograma de implantação ainda será divulgado nas próximas semanas.


Vale lembrar o contexto: a maioria das prefeituras brasileiras já aderiu ao padrão nacional da NFS-e desde o início de 2026, abandonando os antigos sistemas próprios e layouts municipais. Isso significa que essas mudanças técnicas passam a valer de forma uniforme para a imensa maioria das empresas do país, independentemente do município onde você emite nota.


Por que essa nota técnica importa para o seu negócio?

A Reforma Tributária está redesenhando a tributação sobre serviços no Brasil. O IBS e a CBS substituirão gradualmente o ISS, o PIS e a COFINS — e a NFS-e precisou ser atualizada para comportar essa nova estrutura. A NT 009 não é uma simples atualização de formulário: ela reorganiza campos, cria novos grupos de informação e estabelece regras para a transição. Veja os pontos mais relevantes:


O que muda na NFS-e com a NT 009

1. CNPJ passa a aceitar formato alfanumérico

A partir de julho de 2026, o CNPJ deixa de ser exclusivamente numérico e passará a incluir letras. A NT 009 já converte todos os campos de CNPJ na NFS-e para o novo formato — então, se você emite nota para clientes com CNPJ novo, o seu sistema precisa estar preparado para aceitar esse formato corretamente.


2. Novas notas de ajuste de IBS e CBS

A NT 009 cria uma categoria de NFS-e específica para ajuste de crédito e débito de IBS e CBS — algo que antes não existia na estrutura da nota. Se surgir uma situação de crédito ou estorno relacionado a esses tributos, o seu sistema precisará suportar esse novo tipo de documento.


3. Simplificação dos ajustes de base de cálculo

Os campos que tratam de deduções e reduções de base de cálculo foram unificados em um único grupo, organizando em um só lugar as informações de ajuste para ISS, IBS e CBS. Três tipos de ajuste anteriores foram descontinuados por ficarem redundantes — se o seu sistema os utilizava, a atualização será obrigatória.


4. Simples Nacional ganha campos exclusivos na NFS-e

Para empresas optantes pelo Simples Nacional, a NT 009 traz um grupo específico de campos: alíquotas e valores de IBS/CBS diferenciados, código de atividade, regime de apuração e receita bruta usada como base. Com a Reforma Tributária, as empresas do Simples precisarão indicar como estão recolhendo o IBS e a CBS — dentro ou fora do regime —, e essa escolha impacta diretamente os créditos que seus clientes poderão aproveitar.


5. Imóveis e bens móveis ganham estrutura própria

Se a sua empresa realiza locação de imóveis, cessão onerosa ou arrendamento, a NT 009 cria subgrupos específicos para registrar essas operações na NFS-e, incluindo as unidades imobiliárias envolvidas. O mesmo vale para locação de bens móveis. Ambas as mudanças refletem a ampliação do alcance da NFS-e com o IBS e a CBS, que passam a incidir sobre operações que antes não geravam nota fiscal de serviço.


6. Vinculação de pagamentos à nota fiscal

A NT 009 cria um novo grupo que permite associar até 99 transações de pagamento a uma mesma NFS-e — com identificação do meio utilizado (PIX, boleto, TED ou transferência) e da instituição financeira. Essa mudança está alinhada ao futuro split payment, mecanismo pelo qual o recolhimento do IBS e da CBS poderá ocorrer automaticamente no momento do pagamento.


Split payment: por que sua precificação precisa ser revista agora

Esse último ponto merece atenção especial. No modelo do split payment, o imposto deixa de ser apurado e recolhido depois, em uma data própria — ele é retido e recolhido no exato momento em que o cliente paga. Na prática, o valor do IBS e da CBS sai direto da transação, antes mesmo de cair na sua conta.


Isso muda a lógica do fluxo de caixa: o valor "cheio" que aparece na nota não é o valor que efetivamente entra no caixa da empresa. Quem precificar produtos e serviços sem considerar esse recolhimento automático corre o risco de operar com margens menores do que imagina — ou, em casos mais graves, de vender no prejuízo sem perceber.


Uma precificação assertiva, que já contemple a forma como o IBS e a CBS serão recolhidos, deixa de ser um detalhe técnico e passa a ser uma questão de sobrevivência financeira do negócio.


Planejamento tributário: vale para o Simples Nacional também

É comum associar planejamento tributário apenas a empresas do Lucro Real ou Lucro Presumido. Mas, com a Reforma Tributária, isso muda. Como vimos no item 4, as empresas do Simples Nacional também precisarão tomar decisões sobre como recolher o IBS e a CBS — e essa escolha tem efeito direto sobre os créditos que os clientes conseguem aproveitar, o que pode influenciar até a competitividade comercial da empresa.


Ou seja: planejar não é mais exclusividade de quem está em regimes mais complexos. Toda empresa, independentemente do regime, precisa entender o novo cenário antes que as mudanças entrem em vigor — e não depois.


A importância de um financeiro qualificado neste momento

Com split payment, novas regras de precificação e mudanças constantes no leiaute fiscal, a rotina financeira das empresas está mais técnica do que nunca. Erros de configuração, precificação mal calculada ou desatenção a uma nota técnica podem gerar prejuízo real — não apenas multa.


Ter um financeiro qualificado acompanhando essas mudanças de perto, integrado à contabilidade e ao planejamento tributário, deixou de ser um diferencial e passou a ser uma necessidade operacional para atravessar esse período de transição com segurança.


O que você precisa fazer agora

A NT 009 foi publicada em 4 de junho de 2026. O cronograma de implantação ainda será divulgado pelo Comitê Gestor nas próximas semanas. Mas há ações que você pode tomar desde já:


Se você usa um ERP ou software de gestão:
Consulte o seu fornecedor sobre o plano de atualização para a NT 009. Pergunte especificamente sobre os campos do Simples Nacional, o novo formato de CNPJ e a vinculação de pagamentos. E não esqueça da NT 008: a partir de 1º de julho de 2026, a API do governo que gera o DANFSe automaticamente será desativada, e cada sistema passa a precisar gerar esse documento internamente. Confirme se o seu fornecedor já está pronto para essa transição.


Se você usa o emissor da prefeitura:
Acompanhe os comunicados do portal da sua prefeitura e da Secretaria de Finanças municipal. A adequação depende de cada município.


Se você opera com integração via API:
O desenvolvedor responsável precisará revisar o leiaute completo da DPS/NFS-e conforme a versão 4 do Anexo VI e a versão 2 do Anexo VII, publicados junto com a NT 009.


Se você tem dúvidas sobre o impacto para o seu regime tributário:
Fale com a gente. Acompanhamos de perto cada atualização da Reforma Tributária e ajudamos você a entender exatamente o que muda no seu caso.


Para finalizar

A NFS-e está sendo reformulada para suportar a maior mudança tributária das últimas décadas, e a Nota Técnica 009 é mais um passo nesse processo — não será o último. Mais do que acompanhar atualizações técnicas, este é o momento de revisar precificação, fazer planejamento tributário — esteja sua empresa no Simples Nacional, no Lucro Presumido ou no Lucro Real — e contar com um financeiro preparado para essa transição.



Dargelina Seabra
Especialista em planejamento tributário e Reforma Tributária



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